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Da bomba ao mercado financeiro: como o dinheiro pago em combustível batizado com nafta foi parar em fintechs e depois no bolso de criminosos

Dinheiro apreendido pela ‘Operação Fluxo Oculto’ na manhã desta quinta-feira (28). Reprodução/TV Globo Uma nova fase da Operação Carbono Oculto reali...

Da bomba ao mercado financeiro: como o dinheiro pago em combustível batizado com nafta foi parar em fintechs e depois no bolso de criminosos
Da bomba ao mercado financeiro: como o dinheiro pago em combustível batizado com nafta foi parar em fintechs e depois no bolso de criminosos (Foto: Reprodução)

Dinheiro apreendido pela ‘Operação Fluxo Oculto’ na manhã desta quinta-feira (28). Reprodução/TV Globo Uma nova fase da Operação Carbono Oculto realizada na quinta-feira (28) teve como alvo um complexo esquema no setor de combustíveis que tem entre seus beneficiários o Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação chegou a movimentações suspeitas que somam quase R$ 26 bilhões. O esquema, investigado pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal, começa com a adulteração de combustíveis e termina, segundo os investigadores, em um sofisticado sistema de lavagem de dinheiro operado por fintechs, empresas de fachada e fundos de investimento. A investigação aponta que organizações criminosas usavam nafta (um solvente químico com tributação menor que a gasolina) para abastecer um esquema bilionário de fraude fiscal, adulteração de combustíveis e ocultação de patrimônio. No fim da cadeia, o dinheiro pago pelos motoristas nos postos era pulverizado em contas digitais e retornava “limpo” aos operadores do esquema, segundo o MP. O fluxo do esquema acontecia da seguinte forma: Organização criminosa cria empresas de fachada; Compra nafta com benefício fiscal (uso "industrial"); Desvia nafta para terminais portuários e de carga; Mistura nafta na gasolina Tipo A (adulteração); Repassa a gasolina adulterada a postos do esquema; Dinheiro vai para fintechs; Fintechs movimentaram R$ 26 bilhões (2022-2025); Dinheiro vai para fundos de investimento (R$ 205 milhões); Beneficiários reais ficam ocultos; Dinheiro chega limpo no bolso dos criminosos. De acordo com os promotores, fintechs atuavam como “dutos financeiros” da organização criminosa, dificultando o rastreamento bancário e escondendo os verdadeiros donos do dinheiro. Só uma das empresas investigadas movimentou R$ 1,2 bilhão entre 2022 e 2025, segundo o MP. O começo: o desvio da nafta Segundo o Ministério Público, o esquema começava com empresas importadoras e produtoras de solventes petroquímicos, principalmente nafta, que tem tributação muito inferior à gasolina. Isso porque, oficialmente, o produto deveria ser usado pela indústria química. Na prática, os investigadores afirmam que o combustível era desviado. Empresas emitiam milhares de notas fiscais falsas afirmando que a nafta havia sido vendida para indústrias químicas. Essas empresas, segundo o MP, existiam apenas no papel: eram registradas em nome de “laranjas”, muitas vezes pessoas vulneráveis ou beneficiárias de programas sociais, e funcionavam em endereços fictícios. Segundo a investigação, os caminhões mudavam a rota no caminho e descarregavam a nafta diretamente em distribuidoras e terminais de combustíveis. Lá, o solvente era misturado à gasolina tipo A e revendido em postos. A grande sacada do nafta é que tem um marcador que a Agência Nacional de Petróleo determina que seja imposto já no processo de importação. Então, o marcador é muito sensível. Se tiver uma gota de nafta no meio da gasolina, vai apontar na pesquisa Segundo ele, o marcador não é visível a olho nu e só aparece em exames laboratoriais, mas qualquer percentual da substância já é suficiente para indicar adulteração. Como o dinheiro circulava Infográfico: caminho do crime na Operação Fluxo Oculto Arte/g1 Depois da venda do combustível adulterado nos postos, começava a segunda etapa do esquema: esconder o dinheiro. Segundo o MP, dezenas de postos de combustíveis depositavam recursos em contas controladas por fintechs investigadas. Em vez de cada empresa usar uma conta própria identificada, o dinheiro era centralizado em estruturas conhecidas como “contas-bolsão”. Na prática, funcionava assim: O banco tradicional enxergava apenas a conta da fintech; Os verdadeiros clientes ficavam escondidos; A identificação de quem era dono de cada valor aparecia apenas no sistema interno da fintech, nas chamadas “contas gráficas”. Segundo os investigadores, isso criou um ponto cego para o sistema antilavagem de dinheiro. “Quando o dinheiro cai na conta bolsão, o banco só sabe que ele é da fintech, não sabe o CNPJ ou CPF do depositante”, afirma o relatório da investigação. Com isso, o rastreamento do dinheiro ficava mais difícil para órgãos como o Banco Central e o Coaf. Segundo o MP, o grupo migrava rapidamente os recursos entre diferentes fintechs sempre que surgiam fiscalizações ou suspeitas. Em um dos casos investigados, operações de 56 postos de combustíveis eram concentradas em uma única conta. As fintechs investigadas Entre as empresas citadas na investigação estão BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group. Segundo o Gaeco, algumas dessas fintechs teriam flexibilizado mecanismos internos de controle para ampliar a carteira de clientes, mesmo diante de sinais de irregularidades. Os investigadores afirmam que as empresas operavam com “arrefecimento dos sistemas de controle internos” e falhas em procedimentos de compliance e verificação de identidade dos clientes, conhecidos no mercado financeiro como “Know Your Customer” (KYC). Uma das fintechs investigadas, segundo a Receita Federal, movimentou sozinha mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo. Ao todo, os relatórios de inteligência financeira identificaram movimentações suspeitas de quase R$ 26 bilhões. Como o dinheiro voltava “limpo” A etapa final do esquema, segundo a investigação, acontecia dentro do mercado financeiro formal. Para fazer o dinheiro da venda de combustível adulterado retornar aparentemente legalizado às empresas envolvidas, o grupo usava Fundos de Investimento em Direitos Creditórios. Segundo o MP, empresas fantasmas emitiam boletos fictícios. Esses boletos eram pagos pelos fundos de investimento investigados. Os promotores afirmam que as operações tinham características consideradas incompatíveis com o mercado financeiro tradicional: Cessões sem desconto; Operações com prazo de apenas um dia; Fundos com um ou dois cotistas; Transações consideradas fictícias. Na prática, segundo os investigadores, os fundos funcionavam como a última camada de lavagem de dinheiro. Segundo o MP, mesmo após operações anteriores, o grupo continuou atuando, abriu novas empresas de fachada e expandiu o uso das fintechs para ocultar patrimônio e movimentar recursos do esquema. Operação Fluxo Oculto investiga lavagem de dinheiro do ramo de combustíveis por fintechs