Por que a Lei Antiterrorismo no Brasil não enquadra facções como CV e PCC? E como este debate pode impactar as eleições?

  • 11/03/2026
(Foto: Reprodução)
Reclassificação de facções pelos EUA mobiliza Itamaraty A tentativa do Brasil de impedir que os Estados Unidos classifiquem facções criminosas brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) reflete o que diz a legislação nacional. Isso porque grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) não são considerados organizações terroristas, explicam especialistas (leia mais abaixo). 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça ➡️Contexto: em ligação com Marco Rubio neste domingo (8), Mauro Vieira tentou barrar a classificação de facções como Organizações Terroristas Estrangeiras. O pedido é que os EUA esperem o encontro entre Trump e Lula para avançarem com o tema. Na legislação brasileira, terrorismo é definido pela prática de atos violentos "por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio ou a paz pública". Em maio do ano passado, após ser questionado por uma comitiva americana sobre o assunto em uma reunião no Minstério da Justiça, o então secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sabburro, explicou a diferenciação brasileira. “Estas organizações criminosas [brasileiras] não têm qualquer viés ideológico, não têm qualquer viés político, religioso, não querem mudar o sistema. Muito pelo contrário, elas pretendem a prática de infrações penais, lavagem de dinheiro”, afirmou o secretário. Ou seja, a motivação é o que diferencia um grupo terrorista de uma facção criminosa no Brasil. Terroristas costumam buscar fins ideológicos ou políticos, enquanto facções como o PCC ou o CV visam o lucro, especialmente por meio do tráfico de drogas, armas e crimes financeiros. Thiago Bottino, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio, explica ao g1 que a busca pela desestabilização do Estado é outro fator para diferenciar facções criminosas de grupos terroristas. "Um ato terrorista quer desestabilizar o governo. Já organizações criminosas como as nossas não querem desestabilizar governo nenhum, muito pelo contrário. Quanto mais estável for a situação, melhor para atividades criminosas deles", diz. Porém, nos EUA, o conceito de organização terrorista é mais genérico, e o presidente tem mais poder para aplicar esta definição. Um dos critérios é "representar ameaça à segurança de cidadãos ou à segurança nacional dos EUA". Trump se aproveitou disso para declarar como organizações terroristas, por exemplo, o grupo criminoso venezuelano Tren de Aragua e seis cartéis mexicanos. Fontes diplomáticas dizem que a diferença dos conceitos é um dos argumentos que o país deve usar para barrar neste momento a reclassificação dos EUA. Além disso, o governo Lula prepara um dossiê para comprovar aos EUA que o país tem ações contra o crime organizado. LEIA MAIS Análise: classificação de CV e PCC como organizações terroristas pelos EUA vira armadilha eleitoral para 2026 Governo tenta adiar debate sobre classificação de facções como terroristas até reunião de Lula e Trump Como esse debate pode impactar as eleições? Há uma diferença entre a visão do governo, de esquerda, e a da oposição, de direita. Partidos de direita já vinham tentando mudar a classificação do crime organizado como terrorismo no Brasil. Além da tentativa de incluir a equivalência no projeto de Lei Antifacção, há outros projetos que tramitam no Congresso. Diante do debate pela classificação nos EUA, apoiada pela oposição, essa divergência pode afetar a corrida eleitoral de 2026, diz Hilton Fernandes, cientista político e professor da Faculdade Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP). "Historicamente, nós temos a segurança como um problema que aparece nas eleições mais relacionado ao governo estadual. Mas, com essa situação, o foco fica mais nacional", explica. Fernandes vê também que a oposição pode usar a tentativa de mudar os planos dos EUA como combustível para indicar que o governo tentaria "proteger as facções criminosas". "No discurso eleitoral, o que provavelmente vai acontecer e já está acontecendo - a gente vê isso nas redes sociais - é um uso da situação para classificar o governo brasileiro como o governo que protege as quadrilhas, que protege as organizações criminosas", diz. Pensando na campanha, Fernandes afirma o governo deve tentar fugir do tema colocado desta forma. "É uma armadilha muito grande, porque se começar a falar muito do assunto, ele vira a pauta. E já não é de hoje que a segurança é um problema para o governo federal", afirma. Para Fernandes, o governo pode ter problemas se, por estratégia de campanha ou para evitar as investidas da oposição, incluir o crime organizado na lei antiterrorista brasileira ou apoiar a inclusão na lista dos EUA. "Existe uma responsabilidade jurídica, mudaria uma série de questões em outras leis, então isso poderia virar uma bola de neve e até ser contra o governo. Então é arriscado, talvez não seja a melhor solução", afirma. Bottino aponta também que uma eventual alteração para a inclusão das facções pode ser barrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). "A definição da lei é muito precisa. Fala que o que uma organização terrorista quer é fazer as pessoas ficarem com medo e tem sempre essa pauta política. Então, eu posso, por exemplo, mudar a lei e dizer que a partir de agora terrorismo é torcer para o Flamengo. Mas o que vai acontecer? Essa lei vai chegar no Supremo que vai falar que ela é inconstitucional", afirma. E o que acontece se os EUA enquadrarem PCC e CV como terroristas? Segundo Alexandre Coelho, coordenador do curso de Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais, da FESPSP, a classificação das facções como FTO pode ter como consequência: congelamento de ativos em jurisdições conectadas ao sistema financeiro internacional; ampliação de sanções a empresas do país de origem envolvidas com as organizações. pedidos de maior cooperação judicial e policial com autoridades norte-americanas. Para Coelho, isso amplia a capacidade de atuação extraterritorial dos EUA em investigações e mecanismos de repressão financeira. "Para o Brasil, portanto, a preocupação não é apenas jurídica, mas também política e diplomática: aceitar essa classificação poderia abrir precedentes para maior influência externa na gestão de um problema que o país entende como crime organizado doméstico e transnacional, e não como terrorismo internacional", afirma. Presos fazem rebelião na Penitenciária de Junqueirópolis, em São Paulo, em 14 de maio de 2006. O motim começou às 7 da manhã, quando familiares entravam para a visita. Os rebelados subiram no telhado e prenderam faixas na caixa d´água com os dizeres: 'PCC, paz, justiça e liberdade' e 'Contra a Opressão' Alex Silva/Estadão Conteúdo/Arquivo

FONTE: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/03/11/por-que-a-lei-antiterrorismo-no-brasil-nao-enquadra-faccoes-como-cv-e-pcc-e-como-este-debate-pode-impactar-as-eleicoes.ghtml


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