Doutor Wesley: como jovem da periferia de Salvador que estudava com luminária garantiu o primeiro lugar em Medicina na USP

  • 08/02/2026
(Foto: Reprodução)
DOUTOR WESLEY A rotina de Wesley de Jesus, morador de Cajazeiras, em Salvador, era marcada por ladeiras íngremes, longos deslocamentos e desafios típicos de regiões periféricas. Aos 17 anos, ele alcançou o primeiro lugar no vestibular de Medicina da USP, após anos de preparação cercados por obstáculos sociais e estruturais. “Você já começa nessa maratona lá atrás. Você começa bem recuado — fora muitos empecilhos que vão surgindo no caminho”, afirmou Wesley ao recordar o trajeto diário até a escola. Wesley estudou no Colégio Estadual Ana Bernardes, também localizado em Cajazeiras. Os indicadores sociais do bairro ficam abaixo da média nacional em renda e saneamento, enquanto a taxa de analfabetismo é maior que a média do país. Na escola, ele precisou reforçar conteúdos básicos. “Ele chega aqui no sexto ano e precisa de algumas construções de conhecimento. Ele participa dos programas de Mais Educação, onde faz reforço de matemática e português”, explicou o diretor Manoel Menezes, que acompanhou o estudante ao longo dos anos. Apoio da professora de redação Uma das principais referências de Wesley no colégio foi a professora de Redação, Cátia Valentina Góis. Mesmo com 19 turmas e mais de 30 alunos em cada uma, ela mantinha atividades extras e atendimentos fora de sala. “Ele sempre parecia um mini-adulto. Às vezes eu falava: ‘Esse menino entrou na máquina do tempo, veio do século XIX para cá’”, disse a professora. “Ele falava comigo de uma forma que, às vezes, eu tinha a impressão de que Machado de Assis tinha entrado nele.” Wesley buscava constantemente orientação. “Professora, tem como dar uma olhadinha aqui? Estou fazendo estudos, entendendo um pouco sobre determinada coisa… me passa temáticas pra poder escrever”, contou ele. Wesley passou em primeiro lugar para o curso de Medicina na USP. Reprodução Estudo em casa e adaptação da rotina O jovem divide a casa com a mãe e três irmãos. O quarto que usava como sala de estudos não tinha mesa nem computador até que, com ajuda, conseguiu adquirir os equipamentos. Para economizar energia, usava apenas uma luminária. No ambiente, colava nas paredes fórmulas, informações e cronogramas de revisão. “Eu colava aí as fórmulas, algumas informações que eram necessárias, cronograma, assuntos que eu tinha que revisar”, explicou. A mãe, Liliana Maria de Jesus, acompanhou a trajetória desde a infância marcada por crises de asma e internações. As experiências no SUS despertaram o desejo do filho pela carreira médica. “Via ele dormindo em cima da mesa. O dia amanhecendo, ele dormindo. Eu levantava o rosto dele, todo amassado, o olho vermelho. ‘Meu Deus, menino, vá dormir!’”, relatou Liliana. Quando a casa esquentava, Wesley ia para a cozinha; quando chovia, as goteiras molhavam os livros doados. A solução foi estudar o dia inteiro na biblioteca da escola. “Ele ficava sentado aqui, estudando, quebrando a cabeça. Eu sempre digo que ele comia livros”, contou o diretor. Tentativas anteriores e a aprovação Wesley tentou a USP três vezes. Mesmo sem sucesso, insistiu, incentivado pela mãe. “Continue que você vai vencer. Não pare. Uma hora tem que dar certo”, disse Liliana ao filho. A cena da aprovação reuniu a família, que comemorou assim que o resultado foi divulgado. Wesley afirmou que, mais importante do que a primeira colocação, foi ser o primeiro da família a chegar ao Ensino Superior. “Eu cheguei até aqui hoje graças ao apoio de muitas mãos. Todo esse feito não passou só pelas minhas mãos”, declarou. Amigos organizaram uma vaquinha online para ajudar nas despesas de moradia, alimentação e material acadêmico em São Paulo. Representatividade e futuro no SUS Agora calouro da USP, Wesley já realizou uma palestra para alunos do terceiro ano na escola onde estudou. Para a professora Cátia, o desempenho do estudante simboliza conquistas coletivas. “A vitória de todo aluno meu é a minha vitória. É a vitória da escola pública, é a vitória dos professores da escola pública”, afirmou. Wesley diz que pretende atuar como médico comunitário e também no SUS, com foco em retornar benefícios à região onde cresceu. “Para Cajazeiras, para que, de alguma forma, eu possa contribuir com o crescimento de quem mora aqui e, principalmente, quem é da periferia.” Liliana planeja seguir ao lado do filho nessa nova etapa. “Eu canto assim para ele: ‘Olha onde você chegou, olha o que a gente conquistou. Daqui para frente é só eu e tu.’” Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. 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FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/02/08/doutor-wesley-jovem-da-periferia-de-salvador-primeiro-lugar-em-medicina-na-usp.ghtml


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