A ‘sinopse encantada’ da Beija-Flor: carnavalesco diz confiar no samba para faturar o bi com enredo sobre festa centenária da Bahia
05/02/2026
(Foto: Reprodução) Beija-Flor transforma a Sapucaí em mercado e terreiro ao contar a história do Bembé
A fé vai sair às ruas e desfilar. A Beija-Flor de Nilópolis escolheu o Bembé do Mercado como enredo do Carnaval 2026 e promete transformar a Marquês de Sapucaí em um grande cortejo popular.
A proposta é apresentar ao Brasil a cerimônia realizada há mais de 130 anos em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, considerada o maior candomblé de rua do mundo.
Marcada por religiosidade, resistência e ocupação do espaço público, o Bembé não é a história de um único personagem. É uma construção coletiva, feita por muitas lideranças e comunidades negras. Essa característica guiou a concepção do desfile e a forma de organizar a narrativa na Avenida.
“Não tem mistério. É uma festa que acontece ao longo de seis dias, e a gente tem seis setores no desfile. Cada setor corresponde a um dia do Bembé. É um grande cortejo de celebração”, explicou ao g1 o carnavalesco João Vitor Araújo.
A divisão ajuda a garantir uma leitura clara para o público. Cada alegoria funciona como um aprendizado e como parte de um processo contínuo de troca entre a equipe criativa, a comunidade da escola e os espectadores.
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O samba como fio condutor
João Vitor Araújo, carnavalesco da Beija-Flor
Alexandre Barreto/TV Globo
Para a Beija-Flor, o samba-enredo é o principal eixo narrativo do desfile. A escola aposta na clareza da obra para sustentar o desenvolvimento visual e garantir a compreensão do enredo.
“O samba é a nossa sinopse encantada. No dia do desfile, ninguém vai estar lendo texto. O samba precisa explicar tudo. E ele explica”, afirmou João Vitor.
A confiança na música escolhida traz segurança ao trabalho artístico.
“Já vivi a experiência de ter um carnaval lindo e o samba não ajudar. O samba pode acabar com um desfile. Dessa vez, ele é belíssimo, muito claro. É meio caminho andado.”
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Levar o Bembé do Mercado para a Sapucaí também significa assumir uma responsabilidade histórica. Apesar de sua força simbólica, a celebração ainda é pouco conhecida fora da Bahia.
“O Brasil não conhece o Bembé. É uma história que ficou escondida. A gente fez questão de trazer à tona para reacender o debate sobre religiosidade no país”, disse o carnavalesco.
O enredo dialoga diretamente com o presente ao tratar de temas como fé, política e ocupação do espaço público. A narrativa relembra o período logo após a abolição da escravidão, quando pessoas negras continuavam impedidas, na prática, de exercer livremente suas crenças.
“Mesmo com todas as proibições, eles tiveram coragem de ir para a rua. O Bembé é uma festa de autoafirmação.”
Na leitura proposta pela escola, o cortejo baiano se conecta diretamente ao próprio fazer do carnaval carioca. A comparação é usada para aproximar o público da história contada na Avenida.
“O Bembé ocupa as ruas de Santo Amaro. As escolas ocupam a Sapucaí. A Beija-Flor é o Bembé de Nilópolis.”
A escolha do enredo reforça a identidade da escola, conhecida por narrativas ligadas à cultura negra e à religiosidade, agora com o sagrado assumindo papel central.
“A comunidade precisa se enxergar no enredo. Precisa se sentir parte daquilo.”
Expectativa pelo bicampeonato
Lorena Raissa, rainha de bateria da Beija-Flor de Nilópolis
Reprodução/ TV Globo
No fim, a expectativa é que todo o trabalho desenvolvido ao longo do ano se traduza em reconhecimento na apuração.
“Quero muito abrir o jornal na terça-feira de carnaval com a manchete dizendo: ‘Só feitiço tira o bi da Beija-Flor’. Não é arrogância. É uma forma de torcer para que todo o trabalho dê certo.”
Na Sapucaí, a Beija-Flor promete mostrar que fé também desfila — e que tradição, quando ocupa a rua, vira espetáculo, memória e resistência.
A Beija-Flor de Nilópolis é a 2ª escola a se apresentar na segunda-feira (16). O desfile deve começar entre 23h20 e 23h30.
Cartaz do enredo da Beija-Flor para 2026
Reprodução